Editorial

Por um 2012 com mais qualidade de vida e mais respeito por Moçambique

 

Maputo (Canalmoz) – Já estamos em 2012. O período de “festas” passou a voar. Boas entradas são os nossos mais imediatos desejos a todos.

2011 não deixou boas recordações no que respeita a aspectos do interesse comum. Para além de muitas promessas e poucas realizações, fomos brindados com um orçamento do Estado para o corrente ano em que mais uma vez, com a anuência de certos senhores instalados na Assembleia da República e pouco preocupados com o que diz realmente respeito a todos nós, o Governo optou por destinar grandes verbas para as forças de repressão em vez de se preocupar com os que mais precisam e destinar esses fundos a iniciativas que ajudem a eliminar o descontentamento e o desespero dos que continuam a ser os filhos bastardos de Moçambique – muitos milhões, por sinal a esmagadora maioria que não tarda a pôr termo à sua paciência e explodir se nada for feito.

Temos mais um ano pela nossa frente. Este é um ano bissexto. Seria bom que nos evitassem ver de um lado os “abutres” e do outro as vítimas pacientes a assistirem ao desbaste que um punhado vai dando no erário público e nos recursos do País, enquanto alega falta de verba para questões essenciais que ajudariam a resolver muitos dos nossos sobressaltos se o que é do Estado fosse bem gerido. Seria bom, mas não cremos que haja bom senso em 2012 capaz de permitir um melhor ambiente no País e maior respeito de quem de direito pelos que se recusam a ser servis e insistem em continuarem a ser críticos tal é o direito que os assiste a também terem propostas para o País que é um bem comum e não uma reserva de “marginais” pendurados nas instituições que é suposto servirem-nos, mas entregues que andam a delapidadores incontinentes acabam não servindo para os fins que foram criadas.

No dobrar do ano, fomos ainda presenteados com mais uma notícia de um empresário raptado em Maputo e libertado no dia seguinte, contra o pagamento de um resgate de elevado valor, na ordem de um milhão de dólares. Foi mais um caso em que a Polícia não foi chamada nem achada tal é a desconfiança que sobre ela recai, apesar dos exercícios de força que mandam os homens de campo fazer, como o que se viu durante as eleições “intercalares” em Quelimane, e, mais recentemente, a estragar o Natal, Dia da Família e o Fim do Ano, aos pacatos cidadãos da província de Nampula.

Mais um empresário moçambicano, desta vez de convicção hindu e não como os seis casos anteriores de convicção islâmica – sabe-se apenas que se chama Darmendra – foi raptado na quinta-feira para ser libertado na sexta. Foi o sétimo caso de rapto contra resgate, e mais uma vez a Polícia foi apartada de todo, tal o receio que já se instalou de que neste tipo de crime possam estar envolvidos elementos da própria Polícia.

A própria Polícia em quem o Governo justifica estar a investir para combater o crime, não sabe dizer nada do que se passa, limitando-se a querer forçar os ofendidos a revelarem segredos que protegem dos seus raptores para não serem mais importunados, como sucedeu com Yacub Satar, perseguido pela própria PRM para que ele lhes fornecesse pistas.

A própria Polícia quando contactada pelos nossos repórteres para apurarmos informações revela-se surpresa com as nossas perguntas e a disfarçar promete apenas esclarecimentos dali a 24 horas, mas depois reserva-se muda. Foi isso que aconteceu quando abordámos o porta-voz do Comando-Geral na terça-feira para ouvirmos o que terá acontecido a Darmendra. Não sabe de nada. Claramente, a atitude de quem de Polícia parece só ter o nome ou só serve para assegurar bons ofícios a quem deveria antes preocupar-se com os cidadãos.

Estamos perante uma Polícia que, embora esteja a ser dotada de meios, nos apresenta resultados completamente absurdos que estão diante dos nossos olhos e não são dos melhores.

Os empresários, crentes em Moçambique, investem, trabalham laboriosamente dia após dia e acumulam os frutos da sua dedicação. No fim, espera-os insegurança como nunca vista em Maputo. Já se vai no sétimo rapto sem que a Polícia consiga esclarecer um único. É de mês a mês um, mas nem uma palavra se ouve do Governo para sossegar e garantir a tranquilidade – a tal que diz querer assegurar em Nampula para onde a PRM deslocou grandes efectivos de repressão que apenas ali foram estragar as festas dos nampulenses e instaurar um autêntico estado de sítio.

Até já o primeiro-ministro corre para casas das vítimas dos raptos em Maputo, a procurar saber das famílias o que se passa, mas já nem mesmo ele consegue que confidenciem informações, dado o receio de que o que está a acontecer tenha as suas origens em níveis inconfessáveis.

O resultado de tanta ineficiência, de tanta insegurança real, é que os empresários estão a começar a abandonar Moçambique, com receio que a desenfreada onda de raptos não tenha mais fim.

Com isto tudo a suceder, ainda vemos em versão oficiosa certa Imprensa a destacar “pela positiva” uma Polícia que não sendo capaz de esclarecer os sucessivos raptos que estão a suceder, ainda é aplaudida por “estar a conseguir manter melhor que nos anos anteriores a tranquilidade e a ordem públicas, reduzindo os crimes violentos”.

Espera-nos um Janeiro difícil.

Já houve pouco dinheiro ou quase nenhum para celebrar o Dia da Família e a passagem do ano. O que irão ser estes primeiros dias do ano e os primeiros meses de 2012? – É uma grande incógnita.

Não se vê do Governo algo que nos mostre que há preocupação de socorrer quem já não sabe o que há-de fazer para evitar o colapso das suas famílias.

O desespero sente-se, mas não se sente quem deveria andar a procurar alternativas para minimizar a aflição de imensa gente.

Em várias partes do País a passagem do ano foi triste. Esteve patente o que nos espera. Foi uma antevisão.

O fausto emigrou para ir exibir os seus recursos longe da vista dos desesperados.

Valeu-nos a boa notícia que nos trouxe a Vale com o entendimento que diz ter conseguido com o Governo do Malawi que abre novos horizontes ao Corredor de Nacala, mas com os sinais que a PRM está a dar de Nampula, certamente que não haverá assim tantas razões para renovada esperança.

Os constantes cortes de energia eléctrica verificados sempre que aumenta a demanda e foi o caso destas festas que passaram, também retirou credibilidade à EDM e à tão propalada extensão da rede nacional pelos distritos de todo o País. Deixa-nos com a convicção de que o problema está no formato de gestão sobretudo das redes de distribuição a cargo actualmente de empresas privadas a que estando ligados dirigentes da Electricidade de Moçambique impedem o Estado, também neste âmbito, de sair prestigiado. Sairão alguns com dinheiro nos bolsos, mas é preciso que o Conselho de Administração da EDM não permaneça cego. O problema está nas suas barbas. Corrigindo o cenário que indicia a corrupção da grossa talvez consiga num abrir e fechar de olhos dar mais luz a todos. Falta de energia não é certamente. Há até de sobra. O problema está nos sistemas de distribuição e nas negociatas que eles suscitam. Quem diz que não?

Na verdade é num mar de incertezas que estamos mergulhados. Outra incerteza vem do Parlamento. Quando no ano passado estávamos convencidos que o Pacote Anti-Corrupção (um excelente trabalho da UTREL e do Ministério da Justiça que nós saudamos) seria debatido e aprovado para travar a farra que é feita, protagonizada pelos autistas com os dinheiros públicos, eis que os próprios constituíram-se em anti-corpos para que o mesmo pacote legislativo não fosse ao plenário. Aliás, a chefe da bancada da Frelimo já deu sinais claros de que o Pacote ainda será moldado à altura das vontades da Frelimo. Por isso, não cremos que as alterações que serão propostas pela bancada da Frelimo venham a ser em prejuízo próprio. Com base em outros projectos e propostas de lei – vários casos – a que a bancada dos “camaradas” retirou eficácia, cremos que o Pacote Anti-Corrupção poderá ter a mesma sorte, e complementar o menu de leis ineficazes que nos tem sido servido nesta República que querem alguns que não seja de todos.

São muitas as incapacidades deste Governo e dos “camaradas” que lhe retiram a credibilidade. Não cabem neste espaço. Aqui quisemos apenas sobressair as que julgamos que precisam de resposta mais urgente. O ano apenas está no início. Da nossa parte iremos continuar a dar o nosso contributo mesmo que, por vezes, possa haver quem nos considere azedos. O bom iogurte é azedo. O bom vinagre é áspero…

Mas fiquemo-nos para já pelos desejos: muita saúde e prosperidade é o que almejamos para todos. E que neste ano por cumprir consigamos juntos resgatar mais qualidade de vida. (Canalmoz / Canal de Moçambique)