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DATA: 27/02/2014

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Fonte: BCI - 07h36

 

Vídeo da semana

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Cidade de Tete

Município cobra taxa às trabalhadoras de sexo

 

Elas dizem-se vítimas de tortura pela polícia camarária

 

Polícia municipal reage e diz que está a fazer cumprir a postura camarária da cidade

 

Tete (Canalmoz) – Às trabalhadoras de sexo, que praticam seu negócio na cidade de Tete, são cobradas taxas ilegais pelos agentes da polícia municipal local, para além de serem vítimas de pancadaria, caso se recusem a pagar tais valores. Nem o negócio de sexo, assim como as cobranças feitas pelos agentes da polícia municipal estão legislados, por isso podem ser dados como ilegais.

O negócio de sexo na cidade de Tete está a expandir-se e há aqui prostitutas de diversas nacionalidades, com destaque para moçambicanas (locais) e zimbabweanas (estrangeiras). Alguns agentes da polícia camarária são acusados de recorrer a este negócio não legalizado, para colectar algum dinheiro. As principais vítimas são as estrangeiras.

 

A voz das vítimas 

Monica Wengan, 32 anos de idade, de nacionalidade zimbabweana, conversou com a nossa reportagem e deixou o seu sentimento de preocupação com relação às injustiças de que se diz vítima, protagonizadas pelos agentes da polícia camarária do município da capital de Tete.

“Somos estrangeiras, sim. Estou nesta vida há quatro anos e, aqui em Tete, há um ano. Esta é a nossa forma de ganhar a vida. É melhor, ao invés de roubar. O que mais nos preocupa é a perseguição de que temos sido alvo pela parte da polícia camarária de Tete”, contou-nos uma senhora trabalhadora de sexo que nos exibiu uma notificação do município para pagar a multa.

“Até estou com esta notificação (disse, exibindo-a) para ir pagar os valores, segundo eles, referentes à violação do código de postura municipal, por estarmos paradas na rua. São cinco mil meticais (5.000,00MT). Se acham que querem legalizar o nosso trabalho, é melhor, mas o que parece agora é que nos estão a extorquir dinheiro”. “E até às vezes nos obrigam a dormir (praticar sexo) com eles”...

Estamos na avenida 24 de Julho, umas das ruas nobres da cidade de Tete, terra do carvão e de tantos recursos minerais e não só. Lentamente, caminhamos passo-a-passo. Vemos moças lindas, com trajes provocantes. A apresentação é atraente. Paramos por dois minutos. Chega uma delas e faz-nos uma pergunta: “How are you” (como estás)? De seguida, sorrimos e antes mesmo da resposta volta a perguntar. “Quer transar (fazer sexo)”? Não espera pela resposta. Insiste anunciando o preço. “É tão barato, são somente 50 meticais”.

De seguida exibimos crachá de jornalista para a sossegar. Contudo, ela assusta-se. Pedimos-lhe que se acalme e nos conceda uma entrevista. Começa outro processo de negociação e tivemos mesmo que compensar monetariamente o tempo que deixou de trabalhar para nos conceder a entrevista.

“Sou mãe de 4 filhos, natural da República do Zimbabwe. Tenho o nível médio profissional, formada em informática, mas a vida lá não está bem. Venho para aqui para tentar a vida, quero sobreviver e ajudar a minha família”.

Perguntámos à garota de programa sobre os riscos que corre, e se sabia falar do HIV/SIDA e outros riscos.

 

“Há pessoas que não gostam de sexo com preservativo” 

Com sorriso tímido diz: “sim sei da ameaça do HIV, mas há pessoas que não gostam de usar preservativo, e quando pagam mais também aceitamos sem preservativo. É arriscado, sabemos, mas o que nos preocupa mais aqui são as barbaridades dos agentes da câmara municipal, que dia pós dia nos ameaçam, extorquem nosso dinheiro e querem andar connosco (praticar sexo) sem pagar”, conta outra, referindo os mesmos problemas levantados pela sua colega.

Esta também exibe notificações supostamente emitidas pelos agentes da polícia municipal de Tete.

“Veja estas várias notificações. Eu pessoalmente já fui agredida por um polícia por eu ter recusado a andar com ele”.

 

Polícia diz que está a fazer cumprir a postura camarária da cidade 

Deslocámo-nos à secção de inspecção do município de Tete para junto buscar esclarecimentos sobre estas denúncias. Pedimos falar com o inspector-chefe, e informaram-nos que na altura estava ausente. Voltámos no dia seguinte. Receberam-nos e após colocarmos a questão que nos levava ali, um oficial de nome Mário Nelson, que não era o chefe, disponibilizou-se a esclarecer: “Temos ordens para tal (actuar contra as trabalhadoras de sexo). São prostitutas. Não queremos elas aqui. Vamos continuar”, disse com ares de arrogância.

Questionado sobre as agressões e outras violações dos direitos que assistem a estas cidadãs, o agente Mário Nelson respondeu em apenas quatro palavras: “Não posso falar disso”, disse com tom ríspido. E não aceitou responder a mais nenhuma questão. (José Pantie)