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DATA: 17/05/2013

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Editorial

 

Minas de carvão de Moatize e Linha de Sena

Da justificada esperança às justificadas dúvidas

 

Maputo (Canalmoz) – Acaba de ser inaugurada a primeira mina de carvão a céu aberto em Moatize. Outras virão, não só da Vale como de outras companhias que se têm vindo a perfilar para o efeito, na província de Tete, e como se estima que possa a vir a suceder mais tarde ou mais cedo, também na província do Niassa. Fazemos votos!

Outras minas virão. Não só de carvão.

Indústrias diversas, siderurgias, novas centrais eléctricas, refinarias, acrescentarão, com o passar do tempo, valor às riquezas naturais. Beneficiarão disso as gerações futuras.

Só a arte e o engenho de homens como Roger Agnelli é capaz de proporcionar à Humanidade o que acaba de nascer em Tete, fruto da sua liderança e de uma equipa de brasileiros no terreno que ombro a ombro com moçambicanos e tantos outros especialistas de várias nacionalidades souberam seguir a visão do presidente da Vale que vai cessar funções.

Este é um momento particularmente simpático e emocionante para quem ansiava pelo dia em que a Região Centro do País pudesse dar finalmente um ar da sua graça e vincar a sua importância para o futuro do País.

É um momento particularmente agradável ver-se como também a Região Norte está em vias de se poder juntar ao esforço pelo fim das assimetrias que têm caracterizado Moçambique, sem ter de se ajoelhar pela sua própria sobrevivência.

Para quem assistiu aos vários acidentes nas antigas minas subterrâneas de Moatize – em que não foram poupadas imensas vidas de quem nelas trabalhava, ver em cor de carvão renascer do luto a esperança, é um prazer imenso.

Quando havia do poder político um cínico e mórbido sadismo que via nesses acidentes um pretexto para nacionalizar (entenda-se estatizar), a emoção é exponencialmente maior. Estava-se então no auge da indiferença à morte; no auge do nacionalismo kalashnikoviano, permitam-nos a expressão.

Por decisões que viriam a levar o País para o abismo que foi a Guerra Civil por que Moçambique teve de passar, as minas de Moatize e a Linha de Sena vieram a ser alvos preferenciais a abater, como forma de retirar ao regime capacidade financeira para se opor a quem combatia inicialmente contra a opressão, humilhações e o totalitarismo, e mais tarde transformou essa mesma luta em luta pela Democracia.

Como que por ironia da História um dos homens que levou o País para a Guerra Civil esteve com muitos outros seus camaradas da “direcção máxima” da Frelimo Marxista-Leninista ao lado de Roger Agnelli em Moatize a celebrar no último domingo, 08 de Maio de2011, a nova oportunidade para uma parte de Moçambique que se não fosse o seu potencial continuaria esquecida por governantes que não foram nem são capazes de ver para além do seu umbigo.

O tempo e o génio de homens de elevada estirpe tem estado paulatinamente a fazer com que para a História fiquem os abusos e tudo o que julgavam impossível outros descortinarem…

De registar, no entanto, como notória e lamentável a ausência, ao mais alto nível, da oposição parlamentar do País nas cerimónias da inauguração simbólica da mina, no último domingo. A Vale por entre a sua ousadia salientada por Agnelli no seu discurso, por se ter ‘esquecido’ que Moçambique é mais do que a Frelimo e seus representantes, deixa claro que ainda tem algumas lacunas na sua gestão. As suas ambições e a dimensão do sonho comum que ela agora terá de compartilhar com as elites e povos locais exige da Vale maior isenção no tratamento das diversas sensibilidades. Só terá a ganhar se apreender algo deste nosso reparo.

A gaff ficará registada como um dos grandes lapsos da Vale em Moçambique, apesar da admiração que Roger Agnelli suscita aos cidadãos da região que vêem agora nele o símbolo de uma renovada esperança e do início de um sonho que se tornou possível.

Fica também registado o facto de Roger Agnelli ter reconhecido perante a Imprensa que a Linha de Sena é uma dor de cabeça pelo facto de não estar em condições quando começa a ser mais necessária.

Nós vemo-nos forçados a perguntar se os moçambicanos sabem que a fiscalização da obra pelo consórcio indiano CCFB teve como fiscal dos fiscais uma empresa que pertence à filha de Armando Guebuza, Valentina Guebuza, e ao próprio pai através da FOCUS 21, e ainda ao engenheiro Rui Melo – a INGEROP franco-moçambicana?

Por isso perguntamos: se a Linha de Sena está mal construída, a quem se deve? Quem esteve distraído a ponto da Linha estar mal construída como se anda por aí a propagar?

E saberão os moçambicanos, a Vale e Agnelli que as empresas entre as empresas de camionagem a quem pretendem recorrer para transportar carvão de Moatize para o Porto da Beira a fim de ser exportado, têm como accionistas membros da Administração do Estado e até dos próprios Caminhos de Ferro de Moçambique mesmo que alguns encapuçados por familiares e servidores?

Poder-se-á admitir que quem está directamente interessado em que a Linha de Sena não funcione possa de algum modo continuar ligado à representante do Estado na exploração da Linha?

E é admissível que alguma vez se entregue a exploração da linha ou a sua gestão a quem tenha interesse directo ou encapuçado em negócios que passem por ela em concorrência com outros?

(Canal de Moçambique/CanalMoz)