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DATA: 17/05/2013 |
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Fonte: BCI - 07h13
Análise
Por Luís Benjamim Serapião
A Natureza da Igreja Católica Nacional/ Moçambicana
Os médicos continuaram a usar os hospitais que os colonialistas deixaram; os políticos passaram a viver e a trabalhar nas residências que os dirigentes colonialistas habitavam. A Igreja Católica Nacional/ Moçambicana, como todas as demais instituições no país, assumiu e perpetuou as infra-estruturas religiosas deixadas pelo governo português. No entanto, nunca foi considerado como um privilégio o facto de os médicos usarem as infra-estruturas físicas de saúde herdadas do colonialismo, nem tão pouco um privilégio os governantes do Moçambique pós-colonial passarem a habitar as residências dos antigos chefes colonialistas.
Hoje, há interesse entre o mundo académico em investigar a diferença entre a Igreja Católica Colonial e a Igreja Católica Nacional/Moçambicana que surgiu no período pós-colonial. A corrente teórica defendida pelo Professor Dr. Eric Morier-Genoud sustenta argumentos que sugerem que houve uma certa continuidade da Igreja Católica Colonial na nova Igreja Católica Nacional /Moçambicana Depois de admitir que houve alguma rotura da Igreja Católica Colonial em relação à Igreja Católica Nacional/Moçambicana, Morier-Genoud acrescenta que ʺhouve também muitas continuidades, sejam elas de pessoal, na maneira de operar, ou nas ideias e na teologia”.Tenta persuadir o leitor quando adianta: ʺNão me parece adequado afirmar que a Igreja Colonial desapareceu em 1975 e que só ficou uma igreja nacional que não gozou ‘de privilégios de qualquer sistema no país’”. Por fim, realça que ʺela (a Igreja Nacional/Moçambicana) guardou elementos após a independência (incluindo algum pessoal colonial e colonialista); e quis guardar todas as propriedades que a Igreja Colonial tinha recebido do poder português.
O que acima se disse é o resumo dos argumentos de Morier- Genoud em apoio da tese da continuidade. Porém, contradizendo os argumentos acima citados, é um facto que houve uma rotura total e completa da Igreja Nacional/Moçambicana com a Igreja Católica Colonial. Primeiro, o argumento que houve pessoal colonial/colonialista na Igreja Nacional/Moçambicana é contradito pela acusação da Frelimo contra a Igreja Nacional/Moçambicana quando alega que ela é racista porque não tinha indivíduos de descendência colonialista no seu pessoal. É também de notar que o pessoal que integrou a nova Igreja Católica conformou-se com a ideologia pastoral da nova hierarquia. Quanto à maneira de operar, ou nas ideias e na teologia a que Morier-Genoud se refere para provar a tese da continuidade, bastava nós reflectirmos sobre o princípio filosófico que os escolásticos defendem: operari sequitur esse.
Se um indivíduo é colonialista terá de operar/agir como um colonialista. Isto explica porque é que a teologia pastoral do tempo colonial era uma teologia colonialista. Note-se que os seminaristas do Seminário Maior da Namaacha acusaram a Igreja Católica Colonial, (especialmente da arquidiocese de Lourenço marques), de pregar o colonialismo nas Igrejas. (Serapião, 1972). Felizmente, na Igreja Católica Nacional/Moçambicana houve rotura completa com a teologia pastoral colonialista. Isto é, nunca mais se fez a apologia do colonialismo nas igrejas.
Quanto à referência de que a Igreja Católica Nacional/Moçambicana quis guardar as propriedades que a Igreja Colonial tinha recebido do poder português, não se pode descurar uma outra realidade concreta: o procedimento adoptado em relação às infra-estruturas físicas que o governo colonial deixou no país. Os médicos continuaram a usar os hospitais que os colonialistas deixaram; os políticos passaram a viver e a trabalhar nas residências que os dirigentes colonialistas habitavam. A Igreja Católica Nacional/Moçambicana, como todas as demais instituições no país, assumiu e perpetuou as infra-estruturas religiosas deixadas pelo governo português. No entanto, nunca foi considerado como um privilégio o facto de os médicos usarem as infra-estruturas físicas de saúde herdadas do colonialismo, nem tão pouco um privilégio os governantes do Moçambique pós-colonial passarem a habitar as residências dos antigos chefes colonialistas.
Em toda a África os governos e as sociedades civis continuaram a fazer uso das infra-estruturas físicas deixadas pelos colonialistas. Em Moçambique a ocupação e destruição das igrejas tinha mais como finalidade erradicar aquilo que era o símbolo da espiritualidade do povo moçambicano. É dentro deste contexto, que a Igreja Católica Nacional/Moçambicana reagiu negativamente. Não se tratava de uma questão de defender privilégios herdados do governo colonial, mas antes defender os símbolos da espiritualidade do povo moçambicano. (Canal de Moçambique)

Jornal Semanário Nº 200 - 15/05/2013
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